Vamos imaginar: vivemos num palácio, no qual somos o príncipe ou a princesa herdeira e toda a atenção está voltada para nós; como iríamos reagir se nos dissessem que daqui a uns meses esta realidade irá mudar e vai entrar alguém neste palácio,  com o qual temos que partilhar tudo o que, até à altura, era apenas nosso?

O nascimento de um irmão pode ser um momento delicado na vida de uma criança, podendo levar ao aparecimento daquilo a que vulgarmente se chama de “ciúmes”. A criança passa do posto de “filho único” para uma posição até à altura desconhecida, uma posição que implica a partilha do tempo, da atenção e do amor dos pais.

Esta fase pode ser mais complicada de gerir entre os três e os seis anos de idade e a criança pode ficar dominada por pensamentos como: “os meus pais vão deixar de gostar de mim”, “os meus pais vão deixar de ter tempo para mim” e “os meus pais vão dar mais atenção ao meu irmão”.

A dificuldade em compreender, expressar e controlar este tipo de pensamentos pode resultar no aparecimento de comportamentos menos positivos e desadequados para a sua idade. A criança pode tornar-se mais agressiva e mais “birrenta”, podendo até surgir comportamentos regressivos, como fazer chichi na cama, pedir chucha, querer andar no carrinho de bebé, pedir colo e até dormir na cama com os pais. Tudo isto no sentido de chamar a atenção dos pais e sentir que não irá perder os pais para o irmão mais novo.

 

Então, como ajudar o seu filho a aceitar a chegada do irmão?

Primeiro, é fundamental que saiba que o ciúme é algo natural e presente em toda a nossa vida, pelo que se torna necessário aprender a lidar com o mesmo. Mas, enquanto crianças, não sabemos o que é isso de sentir ciúme. Por isso mesmo, o papel dos pais neste assunto é peça-chave para o alcance de um bem-estar adequado.

Mas como fazê-lo?

 

1. Falar, falar e falar

Este devia ser um lema para tudo o que nos acontece na vida. E, neste tema, torna-se ainda mais fundamental que seja criado um espaço de conversa, onde a criança possa verbalizar tudo o que sente, sem medos e receios, recebendo de retorno escuta e compreensão.

Os pais têm a  função de, de mãos dadas com aos filhos, dar-lhes a conhecer o mundo, dando nome a tudo o que é novo: “isto é um carro, isto é uma casa, aqui é o trabalho do pai…” Também neste caso se aplica este ensinamento. É fundamental que os pais dêem nome ao novo momento que se avizinha.

Para que isto resulte, é importante que os pais percebam que pode não ser uma tarefa fácil e que, para lidar com tudo isto, têm que se fazer acompanhar de uma bagagem cheia de paciência, tolerância e compreensão.

Sempre que o seu filho reagir de forma mais agressiva, não reforce o comportamento desadequado, evite dizer-lhe que está a ser “mau” ou “feio”. Diga-lhe antes que compreende que não está a ser fácil para ele lidar com toda esta nova situação e que está ali, enquanto pai ou mãe, para o proteger e continuar a amá-lo.

 

2. Envolva a criança no projecto familiar

Desde cedo, é fundamental que o seu filho se sinta envolvido no projecto familiar. Partilhe com ele a ideia de um novo irmão e envolva-o em tudo o que é nova tarefa: comprar o berço, preparar o quarto, adquirir as primeiras roupinhas. Envolver o seu filho neste projecto fará com o que mesmo se sinta integrado e que os pensamentos de rejeição e exclusão sejam mais facilmente trabalhados e, assim, extintos.

Após o nascimento do irmão, estimule o seu filho a permanecer activo na participação da vida familiar: chame-o para ajudar a trocar a fralda, para adormecer o bebé, para participar na altura no banho ou para ajudar no momento da amamentação.

A chave para o sucesso desta estratégia é delegar responsabilidades no filho mais velho: ao sentir-se participativo na dinâmica familiar e ao sentir-se responsável, ele apercebe-se que continua a ser fundamental e necessário para a família.

 

3. Reserve tempo para o filho mais velho

O nascimento de mais um bebé implica, sempre, uma mudança na vida familiar. Tente organizar a sua vida, para que seja possível passar algum tempo com o seu filho mais velho. Por exemplo, na altura em que o bebé está a dormir, aproveite para brincar com o seu filho. Assim, ele sente que os pais estão atentos e continuam a gostar dele e que ainda é possível tê-los em exclusivo para si.

Caso se comprometa com alguma actividade, desde levar o seu filho mais velho ao parque ou ir com ele andar de bicicleta, evite falhar. Cumpra a actividade, embora lhe seja difícil ou por questões de tempo ou por cansaço acumulado. Deixar o filho “pendurado” em algo que lhe foi prometido só irá engrandecer o sentir de que já não há tempo nem disponibilidade para ele. Também nós, adultos, não gostamos de sentir que algo não foi cumprido, certo?

 

4. Promova brincadeiras entre irmãos

É essencial que exista um espaço de brincadeira entre os irmãos. Embora no início o irmão mais velho possa ser envolvido nas tarefas de cuidar do bebé, mais tarde pode ser envolvido nas tarefas de irmão mais velho, como ensinar a brincar com um jogo, partilhar uma brincadeira ao ar livre, ajudar nas tarefas da escola.

Deixe-os entregues um ao outro, a descobrirem-se enquanto pessoas, enquanto irmãos e, essencialmente, enquanto amigos. Se os pais estiverem sempre a mediar a relação, deixará de haver espaço de espontaneidade entre ambos, longe da “vista” dos adultos.

 

5. Descubra o lado positivo o ciúme

Quando falamos de ciúme, as primeiras reacções podem não ser positivas mas há algo de bom nesta questão. Ao sentir ciúme, a criança vai rivalizar e, assim, competir. Tal é fulcral para o seu desenvolvimento e crescimento saudável. A competição estará sempre presente na nossa vida e aprender a lidar com ela, desde pequeno, é meio caminho andado para aprender a lidar com a frustração, o medo e a desilusão.

 

6. Elogie a idade do seu filho

Elogiar o seu filho pela sua idade, pelos progressos que faz e pelo seu nível de desenvolvimento irá permitir que ele se sinta igualmente importante que o bebé. Ao reforçar as novas aquisições e competências, a criança tenderá a ficar contente com as mesmas, percebendo que a regressão de comportamento não lhe trará mais atenção e que também a evolução e o crescimento são motivos de orgulho dos pais.

 

Trabalhar a chegada de um irmão pode ser uma altura exigente e, como momento novo e diferente, pode trazer muita angústia. Mas como diz o ditado popular: “depois da tempestade, vem sempre a bonança!”, por isso, não perca a esperança e com uma boa dose de paciência e compreensão, de certo que conseguirá amenizar a entrada do novo membro na família.

Tendo por base o amor, não será impossível tornar esta fase em algo positivo para si, para a sua família e, essencialmente, para o seu filho mais velho!

Andreia Cavaca

Andreia Cavaca

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
ver perfil
É essencial que exista um espaço de brincadeira entre os irmãos. Embora no início o irmão mais velho possa ser envolvido nas tarefas de cuidar do bebé, mais tarde pode ser envolvido nas tarefas de irmão mais velho, como ensinar a brincar com um jogo, partilhar uma brincadeira ao ar livre, ajudar nas tarefas da escola.