Regressar às aulas é, para qualquer criança/adolescente, um desafio. E porquê?

Apesar de grande parte das crianças encarar o regresso às aulas com algum entusiasmo e expectativa, pois implica o reencontro com colegas e professores, outros vivem este momento com alguma inquietação.

Sentimentos de stress e ansiedade face ao regresso às aulas são mais frequentes nas crianças que, por exemplo, mudam de escola ou que mudam de ciclo de escolaridade e, também, em crianças mais introvertidas e reservadas.

Embora se registem sentimentos negativos face ao regresso à escola em qualquer idade, iremos focar-nos naqueles que se apresentam mais vulneráveis a este regresso: os mais pequenos, aqueles que entram pela primeira vez no ambiente escolar.

A entrada no 1º ciclo é equivalente à entrada num mundo novo, repleto de pessoas diferentes, de novas rotinas e costumes. É como desbravar um caminho pela primeira vez. Neste caminho, a criança vai-se experimentando enquanto pessoa, colocando à prova a sua identidade e consolidando-a a cada curva do percurso.

Pelo caminho, a criança conhece pessoas (colegas, professores, funcionários) com as quais estabelece, aos poucos, relações mais autónomas e diferenciadas. Esta fase precoce de escolaridade é também caracterizada pela definição da relação da criança com a escola, a qual será a sua “segunda casa” e para a qual irá dedicar diversas horas e muita energia – caso a adaptação seja adequada, a relação com a escola será, à partida, boa; caso a adaptação à escola seja difícil, a relação com a mesma poderá conduzir a algumas problemáticas.

Por ser um novo ambiente e por, cada vez mais, existir a constante pressão para os bons resultados, esta entrada no desconhecido pode ser muito stressante e assustadora. Ao ser vivido desta forma, a criança pode desenvolver sentimentos negativos relativamente a esta nova experiência, podendo conduzir a depressão, ansiedade e problemas do foro comportamental.

É fundamental ajudar a criança a compreender estes sentimentos e a desmistificar os medos e receios inerentes à entrada na escola, promovendo assim o seu bem-estar emocional e permitindo desenvolver a capacidade de obter sucesso escolar. Como fazê-lo, então?

Sugerimos um 3+1, ou seja, actividade física, alimentação adequada e uma boa noite de sono + acompanhamento activo dos pais! A prática de exercício físico potencia o desenvolvimento cerebral e reduz os níveis de stress. Se existir essa disponibilidade, a actividade física deve ser praticada em família, pois melhora as relações familiares.

De mãos dadas com o exercício físico, surge uma alimentação equilibrada e adequada, uma vez que ajuda na regulação de energia e na capacidade de atenção e concentração. A estes dois aspectos junta-se uma boa noite de sono, uma vez que o descanso nocturno alivia a luta contra o stress e tem impacto imediato no rendimento escolar durante o dia.

Por fim, é essencial o acompanhamento activo dos pais na escolaridade dos filhos, para que juntos possam encontrar estratégias para combater as dificuldades e para que os filhos possam descobrir nos pais um porto seguro, que securiza e ajuda nas suas problemáticas.

Dialogar com os filhos, adoptando um discurso que promova a importância da aprendizagem e reduza os aspectos negativos da escola, permite transmitir à criança que a escola é boa e que é um lugar onde se fazem várias descobertas que ajudam a compreender o mundo, na qual crescemos e nos desenvolvemos enquanto pessoas.

É importante descrever a escola como um lugar bom e repleto de experiências ricas, para que a criança se sinta mais entusiasmada e menos ansiosa. Sabemos que também os pais vivem o regresso à aulas com alguma ansiedade: será que ele se vai dar bem na escola? Será que fará amigos? Como será a relação com os professores e funcionários? Será ele um bom aluno?

No entanto, os pais, como adultos que são, têm de aprender a isolar os seus sentimentos mais ansiosos, para que os filhos não sintam que também os pais estão assustados e, assim, aumentarem a sua própria ansiedade.

É natural que os primeiros dias sejam os mais complicados. No entanto, se os pais continuarem a identificar manifestações de tristeza, recusa em ir para a escola, algum desinteresse e aborrecimento, manifestações de desilusão, flutuações de humor (com incidência no mau humor), sintomas físicos (como dores de cabeça, dores de barriga, náuseas e vómitos), aumento da agressividade e de comportamentos de violência com outras crianças, perda de peso e de apetite, enurese nocturna, aconselha-se a procurarem um especialista de saúde mental pois possivelmente estes são sinais evidentes de que a experiência escolar está a decorrer com algumas dificuldades.

O Espaço Potencial deseja a todos os que nos acompanham um excelente início de ano lectivo, com tranquilidade e paciência. Caso necessite, não hesite em procurar-nos!

Andreia Cavaca

Andreia Cavaca

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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"Dialogar com os filhos, adoptando um discurso que promova a importância da aprendizagem e reduza os aspectos negativos da escola, permite transmitir à criança que a escola é boa e que é um lugar onde se fazem várias descobertas que ajudam a compreender o mundo."