Desde sempre que a religião nos fala da importância do perdão como um dos caminhos incontornáveis para a obtenção da benção divina, para o aceder de uma plenitude enquanto indivíduo em comunhão com Deus.

No entanto, o acto de perdoar e os seus benefícios têm sido referidos ao longo da história da humanidade por várias figuras pertencentes aos mais variados quadrantes ideológicos. Sócrates diz-nos que “só quem entende a beleza do perdão pode julgar os seus semelhantes”, Gandhi refere que “o fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte” e Franklin afirma que “as três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar tempo”.

O perdão é, então, encarado como um acto nobre, por vezes difícil de realizar mas que proporciona a quem o pratica uma melhor qualidade de vida emocional.

E perdoar faz bem à saúde? Segundo estudos recentes, a capacidade de perdoar parece conduzir a uma melhor capacidade de relacionamento com os outros e ao aceder de uma maior paz interior, mas isto já nós tínhamos ouvido anteriormente.

O que a comunidade científica nos traz de novo é o facto de que perdoar, para além dos benefícios emocionais já referidos, proporciona uma melhoria da saúde física. Quem perdoa apresenta uma pressão arterial mais baixa, dorme melhor e, em última instância, vive mais.

A investigação sobre a capacidade de perdoar é relativamente recente, tendo começado apenas nos anos 80, mas quantos mais estudos vão sendo feitos a mesma conclusão ganha mais pertinência: perdoar pode de facto melhorar a qualidade de vida física e emocional.

Kathleen Lawler-Row, responsável pelo departamento de Psicologia da East Carolina University, através da sua investigação efectuada em 2005, descobriu a existência de uma correlação positiva entre a capacidade de perdoar e o dormir e uma correlação negativa entre o sentimento de vingança e a insónia.

Num estudo efectuado recentemente, Lawler-Row procurou comparar dois tipos diferentes de respostas psicológicas associadas à capacidade de perdoar: a capacidade de perdoar como uma característica da personalidade e a capacidade de perdoar uma situação específica num determinado momento. Pediu aos participantes que relatassem um evento difícil, no qual se sentiram magoados e registou qual a reacção física associada.

Concluiu que, em ambos os casos, os participantes apresentaram níveis de pressão arterial e batimento cardíaco mais baixos quando comparados com os participantes que não foram capazes de perdoar. Estes últimos, apresentavam um estado agudo de stress que se reflectiu na actividade cardiovascular, apresentando também dificuldade em recuperar, fisicamente, do stress sentido ao relatar o evento traumático.

A investigadora estabelece uma ligação entre estes sintomas e as doenças cardiovasculares, ou seja, o ressentimento pode fazer-nos ficar doentes.

Outros estudos realizados na mesma área têm vindo a confirmar os resultados acima apresentados. Um grupo de investigadores da Universidade de Nova Iorque apontam para a existência de uma associação entre a capacidade de perdoar e os baixos níveis de ansiedade, depressão, de stress e de colesterol.

Pelos vistos e segundo a ciência: perdoar faz bem à saúde (física e emocional). No entanto, nem sempre perdoar é fácil ou acessível, o que não quer dizer que não seja possível aprendermos a lidar com a raiva e o ressentimento de uma outra maneira, de uma maneira mais saudável e produtiva para nós próprios.

Quando vivemos agarrados ao ressentimento, que se acumula ao longo dos anos, corremos o risco de tornarmo-nos bombas relógio, que por tudo e por nada explodem agressivamente, retirando-nos a possibilidade de realmente compreendermos o que se está a passar à nossa volta.

Deve haver, com conta e medida, espaços para as diferentes emoções (raiva, desilusão, frustração, tristeza) e tempo para as viver, para que seja possível seguir em frente sem ir carregando às costas um fardo cada vez maior e insuportável.

Ao que parece, dedicarmos tempo a compreender e a dominar a arte de perdoar só nos trará benefícios: uma melhor relação connosco e com os outros, o que leva a uma sociedade mais segura, equilibrada e saudável.

Carolina Justino

Carolina Justino

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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"Quando vivemos agarrados ao ressentimento, que se acumula ao longo dos anos, corremos o risco de tornarmo-nos bombas relógio, que por tudo e por nada explodem agressivamente, retirando-nos a possibilidade de realmente compreendermos o que se está a passar à nossa volta."