E falamos de crise, palavra repetida até a exaustão pelos portugueses, como um bom fado, que transporta na letra palavras como troika, impostos, dívida, medidas de austeridade; mas ao ouvir repetidamente a mesma música fica-se com a sensação de que há algo que falta, o indivíduo.

Somos um país pequeno e de poucos recursos económicos quando nos comparamos com países da Europa com fortes capacidades de produção e exportação. E que temos nós que nos possa distinguir numa Europa cada vez mais competitiva? Pessoas! Muitos são os portugueses distinguidos e reconhecidos em diversas áreas de ciência e investigação por este mundo fora. E os que estão cá dentro? Como estão realmente os portugueses a lidar com a “crise”?

Segundo o relatório de Primavera 2012, intitulado “Crise & Saúde – Um país em sofrimento” e elaborado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde, os efeitos da crise socioeconómica são reais e têm uma forte influência nos portugueses, a qual se manifesta pela perda de autoestima, depressão, ansiedade e risco de comportamentos suicídas.

Paralelamente, os dados relativamente à venda de antidepressivos em Portugal apontam para um aumento de 6,3% sendo que as vendas comparticipadas aumentaram 11,5%, o que se reflecte num custo elevado para o Estado Português. Serão os antidepressivos capazes de tirar o país da crise?

Deparamo-nos com uma espiral descendente, uma economia deprimida num país de pessoas deprimidas, o que forçosamente tem efeitos no nosso nível de produtividade. Haverá luz ao final do túnel? Como poderemos inverter esta tendência?

Ao relembrar acontecimentos da história mundial, constatamos que muitos momentos críticos culminaram em evolução económica e social. De facto, momentos de maior instabilidade podem abrir as portas à mudança para aqueles mais capazes de lidar com a frustração e de manter a persistência perante um fado que ecoa desânimo e pessimismo.

Apesar da sabedoria popular nos dizer que “a necessidade obriga”, é necessário a promoção de recursos que permitam ao indivíduo desenvolver a capacidade de se redescobrir, reinventar e evoluir, tornando-se mais resiliente e empreendedor.

Parece ser importante ir à raiz do problema, os dados acerca da saúde mental em Portugal são preocupantes e os psicotrópicos apenas actuam como remendos, uma solução “faz de conta”. Começa a estar na altura de pararmos para pensar em estratégias mais eficazes e mais focadas no indivíduo, que promovam a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar psicológico, reflectindo assim uma capacidade mais activa, construtiva e produtiva para lidar com os obstáculos a nível pessoal e, consequentemente, a nível profissional.

Uma das formas de ir ao encontro deste objectivo poderá ser através de um apoio psicoterapêutico. Infelizmente, no nosso pais, em comparação com outros países da Europa, a oferta deste serviço ao nível do Sistema Nacional de Saúde é escassa.

Torna-se então pertinente pensarmos acerca da importância de um aumento do apoio psicológico, assim como uma sensibilização acerca dos benefícios do mesmo, pois apesar de acarretar custos e respostas a longo prazo, permitem ao indivíduo alcançar mudanças a nível psicológico consolidadas e mais duradouras.

Carolina Justino

Carolina Justino

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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