Ser pai, educar uma criança, acompanhá-la diariamente ao longo das várias etapas, vê-la crescer é, sem dúvida, gratificante; no entanto, trata-se, por vezes, de uma tarefa árdua e extenuante.

As crianças, surpreendem-nos e emocionam-nos mas também testam os nossos limites. Surge a teimosia, o bater o pé, quer seja à hora da refeição, porque não querem comer a sopa ou os vegetais, ou quando têm de arrumar o quarto e não o fazem, ou porque lhes é pedido que se comportem bem na visita semanal a casa dos avós e isso não acontece.

Como lidam os pais com os desafios constantes? Uma das formas mais comuns passa pela atribuição de recompensas ou “subornos”, para que seja obtido o comportamento desejado; recompensas estas que podem passar pelo aumento de minutos passados no computador, pela permissão para comer guloseimas quando não é suposto ou até por um dinheiro extra na semanada.

Mas que consequências terão estes métodos persuasivos? A literatura diz-nos que o acto de recompensar não só não funciona a longo prazo como pode ter um efeito negativo para as crianças. Após quatro décadas de investigação, os investigadores chegaram à conclusão que ao serem dadas recompensas externas, as crianças perdem o interesse na tarefa em si, sendo que apenas cumprem a tarefa para alcançar a recompensa e quando não a têm, simplesmente não realizam a tarefa.

No entanto, falar é fácil; recompensar ao que parece é negativo mas a verdade é que a curto prazo funciona e é uma técnica utilizada vulgarmente pelos pais.  Será possível fazer diferente? Como?

Segundo Dr. Deci, professor de psicologia da universidade de Rochester, a atribuição de recompensas funciona, pelo menos, a curto prazo, sendo este o seu maior problema. Porém, a eficácia desta técnica só se concretizará a longo prazo, se os pais tiverem dispostos a recompensar os seus filhos eternamente. Surge então a questão: se aos 5 anos um gelado cumpre a função, o que será necessário dar aos 20 e aos 30 anos?

Dr. Deci sugere uma alternativa que passa por três passos. Primeiro, explicar à criança a importância da tarefa que está a ser exigida. Segundo, mostrar interesse no seu ponto de vista, se for uma tarefa que a criança não gosta de fazer, reconhecer que não é algo divertido mas que necessita de ser feito e voltar a reforçar o porque.

Finalmente, comunicar não significa controlar e, por tal, é importante tentar evitar o uso de palavras como “deves”, “tens que”, que passam a mensagem “tens de fazer porque eu sou adulto e porque te estou a dizer que o faças”.

No que toca a educação, se procurarmos encontramos mil e uma recomendações; no entanto, dificilmente na prática os acontecimentos decorrem by the book. Parece-nos importante manter alguma coerência no ditar das regras e, sobretudo, proporcionar às crianças, através dos pequenos desafios do dia-a-dia, a ideia que é necessário lidar com a realidade que nos apresenta aspectos positivos mas também aspectos desafiantes e menos agradáveis.

Por exemplo, no que toca alimentação, o facto da criança manter no prato os vegetais que não quer comer, em vez de empurrá-los para o prato dos pais, pode ser uma forma de, desde pequeno, aceitar que apesar de poder comer o bife de que tanto gosta, tem de aceitar a presença das ditas “coisas verdes”, que hoje não gosta mas que pode vir a gostar no futuro.

Pois, afinal e apesar da relação pais – filhos ir mudando com o passar do tempo, a autoridade tem de ser representada pelos pais, sem necessariamente ser imposta. Para criarmos uma estrutura temos que começar pelo princípio e, nesse sentido, apesar de poder ser difícil dizer que não e impor regras, esta é uma das principais funções do ser pai e uma das regras de ouro para que as crianças se possam tornar adultos capazes de lidar com os desafios e contratempos da vida.

Fonte: New York Times

Carolina Justino

Carolina Justino

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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